Por que usar saturação na mixagem?

Na hora da mixagem, engenheiros de som inevitavelmente se deparam com choque de frequências entre instrumentos, tracks que precisam de um reforço no punch, dentre outros incontáveis fatores de timbre. Muitas vezes, o instinto do trabalho é aplicar um equalizador e/ou um compressor para solucionar os problemas. Porém, há uma ferramenta que é muitas vezes subestimada: a saturação. Ela distorce o sinal ao elevar seu ganho, o que também a faz ser conhecida como distorção. Em inglês, é conhecida como drive, muitas vezes categorizada quanto ao nível de ganho, em ordem crescente, como: overdrive, distortion e fuzz.

A principal característica desse recurso é o fato de gerar novos harmônicos para o sinal processado, diferentemente da equalização, que apenas reforça ou atenua partes do conteúdo harmônico já presente no sinal. Isso torna a saturação potencialmente muito interessante para moldar timbres.

É possível ilustrar o funcionamento desse recurso de uma forma bem simples e vamos demonstrá-lo a seguir.

1. Na DAW Pro Tools, inserimos em uma track um plug-in nativo conhecido como Signal Generator (gerador de sinal), configurando-o para gerar uma onda senoidal (tom puro) de frequência arbitrária. Esse sinal não possui harmônicos, apenas a frequência fundamental (no caso, a escolhida foi 200Hz).

2. Inserimos, em seguida, o plug-in de saturação Waves OneKnob Driver, e, depois, o equalizador FabFilter Pro-Q3.

3. Zeramos o ganho no OneKnob Driver, de forma que não ocorra saturação alguma. Vamos apenas observar o espectro resultante da geração deste sinal através do equalizador FabFilter Pro-Q3 (sem boosts nem cuts).


Tom puro de 200Hz, sem distorção nem equalização

4. Ao inserir um Hi-Shelf de boost em 1.5kHz, vemos que o espectro não se altera – afinal, o tom puro não possui harmônicos, isto é, não possui qualquer outra frequência a ser acentuada se não a própria fundamental, neste caso, de 200Hz.


Tom puro de 200Hz, sem distorção, com boost nas frequências agudas

5. Retiramos a equalização para analisarmos o impacto da saturação no espectro de frequências do sinal gerado. Giramos o botão do OneKnob Driver ao máximo no sentido horário, de forma a distorcer o sinal o máximo possível. Ao observar o espectro de frequências, agora, vemos novos harmônicos, tanto abaixo quanto acima da fundamental.


Tom puro sob efeito da distorção, sem equalização

6. Ao reabilitarmos o boost nas frequências agudas, veremos que essas frequências são acentuadas, pois agora o sinal que adentra o equalizador possui conteúdo harmônico naquela região.


Tom puro processado com saturação e equalização

Essa característica é bastante importante e permite imaginar situações em que a saturação pode ser muito útil. Vamos dar uma olhada em algumas delas?

Alguns casos para utilizar saturação como solução

Imagine a seguinte situação: um equalizador com boost de extremos agudos em uma voz que foi gravada passando por um lo-pass. Esse boost não seria muito eficaz já que originalmente não há muitas frequências agudas para serem trazidas à tona. Porém, se for utilizada saturação nessa track de voz, novos harmônicos são gerados, inclusive na região aguda, modificando sua composição de harmônicos e, consequentemente, seu timbre. Logo, parece conveniente saturar a track de voz para gerar tais frequências e só então reforçá-las com um equalizador. Essa situação pode ocorrer com qualquer outro sinal: de guitarra, sintetizador, orquestras e por aí vai.

A função de gerar novos harmônicos é aplicável a qualquer faixa do espectro de frequências e a saturação pode ser utilizada em diversos outros contextos como, por exemplo:

– Gerar harmônicos graves num baixo, enfatizando o registro dos sub-harmônicos e dando maior substância ao low-end do instrumento;
– Ressaltar a ressonância de uma caixa ao gerar novos harmônicos pertencentes ao seu decay;
– Gerar novo conteúdo harmônico de frequências agudas/médio-agudas características da batida do pedal na pele de um bumbo, ressaltando seu ataque;
– Dar maior ambientação a um kit de bateria ao saturar o Room Mic (microfone que capta o som da sala);
– Aumentar a agressividade e destaque na mix de uma guitarra (inclusive aquelas já gravadas com distorção).

Há muitos outros casos. O importante é entender o efeito e pensar criativamente como ele pode ser útil em uma produção.

De uma forma geral, a saturação pode ser utilizada também para remeter à sonoridade de equipamentos analógicos. Com o desenvolvimento dos sistemas digitais, a captação de instrumentos e microfones tornou-se tão cristalina e precisa que por vezes soam até “limpas demais”, de forma que o grau de transparência dos transientes e detalhes de timbre podem chegar a ser esteticamente indesejados. E a saturação pode trazer um pouco da “sujeira” e personalidade característica de componentes analógicos como válvulas, transistores e até mesmo fitas magnéticas, conferindo ao sinal uma estética mais adequada, de acordo com cada caso.

Técnicas e plug-ins de saturação

Muitas vezes não se deseja distorcer todo o espectro de frequências de um sinal, já que isso pode trazer também harmônicos indesejados. Uma prática muito comum nesses casos é aplicar um equalizador numa cópia do sinal, filtrando as frequências indesejadas dessa track (por exemplo, retirando-se os extremos graves e agudos) antes do estágio de saturação. Isso pode ser feito tanto duplicando uma track com seu conteúdo de áudio como enviando uma cópia do sinal de uma track via send para um canal auxiliar com o efeito de distorção, de forma que a proporção entre o sinal limpo e a cópia saturada pode ser dosada. Pode-se também aplicar a saturação diretamente na própria track, sem cópias, mas essa decisão pode comprometer a track original. Vai depender do contexto e da necessidade de cada caso.

Muitos plug-ins de saturação possuem controles de timbre além do ganho em si, como é o caso do Decapitator, da fabricante SoundToys.


Interface do SoundToys Decapitator

Dentre os parâmetros desse plug-in, vemos os controles de Lo-Cut, Tone e Hi-Cut. Com o Lo-Cut é possível retirar os graves de 20Hz a 1kHz antes do estágio de ganho. Também anteriormente ao drive, o Tone possibilita acentuar desde as frequências graves (na posição Dark) até as agudas (Bright). Por fim, o Hi-Cut corta as frequências agudas após o ganho. Os três controles tornam o uso da distorção desse software extremamente versátil.

Algumas distorções, como o plug-in Saturn, da FabFilter, por sua vez, permitem ao usuário selecionar níveis de ganho diferentes por banda de frequência.


Interface do FabFilter Saturn

Plugins com esse tipo de recurso apresentam a versatilidade de moldar com precisão a composição dos harmônicos ao longo de cada faixa de frequência do sinal processado.

Tendo esse conhecimento sobre as diversas aplicações de saturação, recomendamos que você faça seus testes e tire suas próprias conclusões. É fundamental, como com qualquer ferramenta, entender em quais contextos o recurso vai acrescentar à sonoridade da música e qual a melhor forma de usá-lo. Desfrute dos benefícios da saturação!

Sobre Rafael Freitas

Graduado em Engenharia Mecânica pelo CEFET-MG, atua como revisor de conteúdo e editor de áudio na UA, além de ser baixista profissional e produtor musical. Rafael especializou-se em engenharia de áudio e produção musical através de cursos presenciais e workshops de profissionais reconhecidos do mercado de trabalho nacional como Pedro Peixoto e Beto Neves e mantém um constante aprendizado na produtora Sonastério. Como baixista, seus destaques incluem mais de duzentas faixas gravadas para artistas ao redor do globo, um canal no YouTube com mais de 750 mil visualizações e shows e workshops ao lado de músicos de renome como Aaron Spears (Usher/Ariana Grande) e Doca Rolim (Skank).

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