Fundamentos do Reverb

Engenheiros de áudio e produtores musicais muitas vezes procuram um som bem direto e seco ao gravar. Por isso, geralmente posicionam o microfone bem próximo à fonte sonora, de forma que seja gravada com o máximo de detalhes e com menor captação possível da ambiência natural da sala.

Grande parte dos produtores e engenheiros prefere, normalmente, usar simulações digitais de espaços para a ambientação do sinal captado, misturando diferentes tonalidades de reverb para gerar profundidade e contraste mais interessantes em suas produções. Além disso, essa prática permite que engenheiros deliberadamente posicionem certos sons numa mixagem como, por exemplo, adicionar muito reverb em um sinal de sintetizador pad para levá-lo para trás na mix e não interferir na linha de um sintetizador lead.

Na mixagem, o panorama L/R possibilita separar instrumentos e sinais entre esquerda e direita, enquanto efeitos baseados em tempo, como o próprio reverb, permitem trabalhar a profundidade dos sons, trazendo-os para frente ou para trás.

O que é Reverb?

Reverberação, comumente conhecida como reverb, é o som criado quando ondas sonoras são refletidas em superfícies e se sobrepõem ao som direto ao chegar aos ouvidos, de modo que aumenta seu tempo de decaimento. Por exemplo, se alguém grita com você numa sala, você não ouve apenas o som emitido diretamente da boca da pessoa, mas também as reflexões desse som vindas das diversas superfícies ao seu redor (paredes, móveis, etc).

O tempo decorrido para que essas reflexões se dissipem ou sejam absorvidas por outros objetos é chamado de decay time (tempo de decaimento, em português). Muitas vezes o padrão de decaimento também é chamado de tail (cauda, em português).

Há pessoas que se perguntam porque soam tão bem cantando no chuveiro. A resposta é bem simples: azulejos de banheiro geralmente são altamente reflexivos e criam um reverb natural, o que certamente ajuda com afinação da voz, tornando o ato de cantar naquele ambiente muito mais divertido. Por um motivo semelhante, é recomendado se certificar que, ao gravar um vocalista, ele esteja monitorando sua voz com uma dose de efeitos como reverb. Além de se ouvir de modo mais natural, pois ouvimos o tempo inteiro com algum tipo reverberação, ele também se sentirá mais confiante, o que contribui para uma performance melhor do que se estivesse escutando apenas a voz seca captada pelo microfone.
Um breve histórico do Reverb

Um dos primeiros usos de reverb artificial (isto é, reverb não originado da sala que o som foi gravado) por engenheiros de áudio consistia em colocar uma caixa de som numa sala separada emitindo o sinal que se desejava processar, e um microfone captando o som direto da caixa de som somado às reflexões do ambiente escolhido. O grande problema disso era a necessidade de um ambiente separado apenas para um tipo de reverb, algo que pode ser feito atualmente apenas com um plug-in.

Em 1957, estúdios puderam começar a dispensar suas salas e câmaras de reverb com a chegada da Unidade de Reverberação EMT 140, do tipo Plate (explicado mais à frente). Esse dispositivo se difundiu rapidamente pelos estúdios graças à sua sonoridade incrível, comparável às salas mais precisamente afinadas dos maiores e melhores estúdios da época.


Exemplar físico do EMT 140

Em 1976, foi lançado o EMT 250, o primeiro reverb digital reverb da história, que abriu portas para uma infinidade de possibilidades no mundo digital. A partir daí a programação de reverbs digitais evoluiu até ser incorporada a computadores, chegando aos níveis dos plugins encontrados atualmente.


Exemplar do EMT250, capaz de gerar reverb artificial por meios digitais

Formas de geração de reverb

Uma das três formas de gerar reverb artificial foi descrita acima: consiste no uso de um dispositivo ou espaço físico próprio para isso, como uma sala ou placa metálica (Plate).

As outras duas formas, algoritmo e convolução, ocorrem no âmbito digital. Com o aumento da capacidade de processamento de computadores, veio o desenvolvimento de reverbs por convolução. Esse método usa Impulse Responses (em português, Resposta de Impulso), isto é, gravações de respostas de reverberação em espaços reais no instante em que um sinal white noise extremamente curto é emitido, de forma a captar o padrão de decaimento e, a partir dele, possibilitar a manipulação da sonoridade do Reverb naquele ambiente específico. Esse tipo de reverb é extremamente útil, por exemplo, na pós-produção, quando se precisa regravar um áudio que foi originalmente captado em outro lugar. Qualquer Impulse Response (IR) captada no local original possibilitaria ao engenheiro de mixagem adicionar o mesmo som da sala no processo de regravação.

A segunda forma de reverb digital é criado com o uso de algoritmos. Como citado anteriormente, o EMT 250 foi o primeiro reverb digital e é baseado em algoritmo. Nesse sentido, o algoritmo consiste numa fórmula matemática que é calculada e executada pelo processador do hardware ou computador utilizado de forma a simular a sonoridade de um reverb, o qual é somado ao sinal original.

Tipos de Reverb

Os principais tipos de reverb se referem às formas como são gerados fisicamente, sendo eles:

Room: som de reverb gerado por uma sala, normalmente de tamanho pequeno. Nessas salas o tempo de decaimento é tipicamente menor que 1 segundo. Esse tipo de reverb pode dar mais vida a um som e colocá-lo num espaço com o qual nossos ouvidos estão familiarizados. Por causa disso, traz um efeito bem prazeroso e ajuda a encaixar sons numa mix. É comum usar Room Reverbs em instrumentos percussivos como caixas ou até mesmo kits de bateria e percussão que soam secos demais mas não precisam de um reverb longo e audível. Como o decay é muito curto, o reverb é mais sentido do que propriamente escutado numa mix.
Plate: a exemplo do EMT 140, é o reverb gerado pela reflexão de um som sobre uma superfície metálica, somada à ressonância da placa vibrando com a energia acústica. Plate reverbs geralmente tem um som muito prazeroso e funcionam muito bem com praticamente tudo. Ondas sonoras trafegam mais rapidamente numa placa metálica do que no ar, o que confere a esse tipo uma cauda sutil porém densa e um som cada vez mais buscado por engenheiros e produtores do mundo todo.
Hall: simula salões de concertos, auditórios projetados com a acústica como principal prioridade. Esses salões são meticulosamente afinados de forma a remover artefatos negativos que possam prejudicar a percepção sonora, como ressonâncias, ondas estacionárias e resposta de frequências desbalanceada. Esse tipo de reverb ficou mais popular com o avanço do uso de efeitos digitais baseados em tempo. Funciona muito bem com várias fontes sonoras. Um dos exemplos mais populares de Hall Reverb é o Lexicon 480L, que pode ser encontrado nos estúdios mais prestigiados do mundo.
Chamber: o reverb de câmara, em português, é normalmente gerado em uma sala de tamanho médio com diferentes tipos de superfícies refletivas que são estrategicamente posicionadas em ângulos distintos. Oferece uma sonoridade densa, exuberante e, ao mesmo tempo, não exagerada.


Exemplo de captação do som de uma câmara

Spring: reverb de mola. Seu padrão de funcionamento é parecido com o do plate reverb, porém o som do reverb não vem da vibração de uma placa metálica e sim de uma mola, após ser estimulada por um som. Possui um decay curto ou médio e é muito usado com guitarras e teclados, pois são pequenos o suficiente para caberem em amplificadores. É o que origina o som estrondoso que você já deve ter ouvido ao esbarrar em um sintetizador ou amplificador de guitarra. Isso não significa que seu uso está restrito a esses instrumentos. Na verdade, pode soar muito bem com várias outras fontes sonoras como vocais, sintetizadores e pianos. Seu som pode ser descrito como metálico, como o plate, porém mais descontínuo; mais vivo, porém com menos profundidade.


Interior de um tanque de molas de um Spring Reverb

Ambience: consiste em um reverb extremamente curto com reflexões acontecendo entre meio segundo ou menos. Esse tipo é normalmente usado para alterar levemente um timbre, já que seu decay é bem curto, e portanto mais sentido do que escutado. Alimentar diversas fontes sonoras com um ambience reverb paralelamente pode proporcionar um efeito muito satisfatório de “cola” entre elas.

Shimmer: é um tipo bem peculiar de reverb, forjado a partir da combinação de um dos tipos de reverbs mencionados anteriormente com um pitch shifter, ou seja, uma modulação do tom do sinal processado, normalmente com decays muito longos (acima de 5 segundos), o que caracteriza esse reverb como um dos mais distintos. Sua sonoridade é bem artificial e seu uso costuma ser dado de forma a enfatizar o decaimento do sinal com a modulação.

Parâmetros de Reverbs

Ao manipular os diversos tipos de reverb, você certamente se deparará com alguns parâmetros adaptáveis constantemente encontrados em muitas unidades, dentre os quais podemos citar:

Pré-Delay: atraso até o início das reverberações (costuma ter valores adaptáveis entre 0 e 50 milissegundos);
Early Reflection: intensidade da percepção das reflexões primárias, que caracterizam fortemente a sonoridade do tipo de reverb utilizado;
Size: simula o tamanho do espaço utilizado na geração de reverb, principalmente no que diz respeito à altura do recinto;
Diffusion: padrão gerado pela combinação das reflexões, definindo a densidade do reverb;
Decay: já citado anteriormente, diz respeito ao tempo de duração do reverb desde seu estímulo inicial até o fim do do decaimento. Num espaço físico real, é definido pela sua área horizontal.

Tendo todas essas informações sobre reverb, você já sabe mais do que o necessário para partir para a experimentação! Faça testes com os mais diversos tipos de reverb em suas gravações e mixagens para se familiarizar com suas sonoridades e desfrute dos resultados.

Sobre Rafael Freitas

Graduado em Engenharia Mecânica pelo CEFET-MG, atua como revisor de conteúdo e editor de áudio na UA, além de ser baixista profissional e produtor musical. Rafael especializou-se em engenharia de áudio e produção musical através de cursos presenciais e workshops de profissionais reconhecidos do mercado de trabalho nacional como Pedro Peixoto e Beto Neves e mantém um constante aprendizado na produtora Sonastério. Como baixista, seus destaques incluem mais de duzentas faixas gravadas para artistas ao redor do globo, um canal no YouTube com mais de 750 mil visualizações e shows e workshops ao lado de músicos de renome como Aaron Spears (Usher/Ariana Grande) e Doca Rolim (Skank).

Comentários (2)

  • djmagela@hotmail.com'
    Geraldo

    Excelente artigo!

  • Wilmamrodrigues@hotmail.com'
    Wilma

    Muito bom produtor e professor Rafael Freitas.
    Muito obrigada pelo ensino bem explicado.

    Assim eu aprendo.
    Estou muito feliz em aprender com explicacões fáceis de entender do jeito que você esclarece.

    Grata. Grata.

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