Dicas para Programação de Bateria MIDI

A Era Digital trouxe consigo algumas ferramentas bem práticas e uma delas é o instrumento virtual. Não é necessário ter um clarinete em casa nem saber como tocar um pra contar com um som convincente de clarinete na sua música.

Isso é muito conveniente, principalmente considerando a nova cultura de home studios. Gravar bateria acústica em casa, por exemplo, na maioria dos casos é um desafio por questões de isolamento e tratamento acústico, além de disponibilidade de microfones e entradas na interface de áudio. Por isso, a bateria é – em geral – um dos instrumentos virtuais mais usados, em diferentes gêneros.

Hoje vamos falar de alguns truques para conseguir um som convincente e consistente na hora de programar baterias.

1. Velocity

Um dos maiores segredos para conseguir um som convincente na hora de programar baterias é saber usar bem as velocities.

Velocity é o termo em inglês para descrever o parâmetro MIDI de dinâmica do instrumento virtual. Não confunda velocity com volume: uma nota tocada mais forte não é simplesmente uma nota com mais volume. Mais força na hora de tocar significa também que o instrumento ressoa de forma diferente, com harmônicos diferentes. O volume é só um dos fatores de uma nota tocada com mais força.

Quando falamos de grooves, o bumbo e a caixa em suas batidas normais tendem a pedir consistência. Tanto que muitas vezes há a substituição de baterias reais (gravadas em estúdio) por samples, com a técnica chamada triggering. O triggering é feito para tentar aumentar a consistência na performance de um baterista – mas vamos falar mais dessa técnica em outro artigo. Da mesma maneira que nossos ouvidos se acostumaram a ouvir vocais perfeitamente afinados com o aparecimento da afinação digital, os grooves perfeitamente consistentes já não são esquisitos para nós.

Por isso, é aceitável deixar todas as batidas fortes de caixa com valor 127 de velocity. Já com os bumbos, é possível deixar um espaço (headroom) para algum trecho que precise ser mais forte e cheio de impacto. Então uma boa média para usar como referência para programar os bumbos é 122 de velocity. É claro que esses números são para momentos intensos, quando a dinâmica está elavada, mas eles dependem muito do estilo e da dinâmica da parte específica da música. Em uma parte mais calma, por exemplo, esses números podem se reduzir praticamente pela metade. Tendo isso em vista, é válido frisar que esses valores de referência podem variar de acordo com a sample library utilizada, bem como como o timbre e dinâmica que o programador busca para cada parte de sua composição.

Em contrapartida aos grooves, as viradas com consistência desumana tendem a entregar um som falso. Nas viradas nossos ouvidos detectam bem aquele “efeito metralhadora” de um sample específico sendo reproduzido várias vezes em seguida. Quando se toca bateria de verdade, por mais que o baterista seja consistente, é impossível que o som saia exatamente do mesmo jeito. Por ser um efeito que nunca acontece na natureza, quando escutamos uma gravação exata sendo repetida, sentimos esse som como não natural. Por isso, vale a pena alterar alguns velocities quando programando viradas, para simular batidas mais fracas da mão esquerda, por exemplo.

Uma outra dica pra tratar as velocities bem é: não tenha medo de diferenças bruscas de velocity. Por exemplo: quando tocamos o bumbo duas vezes seguidas bem próximas, a tendência é que a primeira nota seja muito mais baixa que a segunda. Quando programar, experimente imitar esse efeito fazendo o primeiro bumbo com 70 de velocity e o segundo com 122. Essa dica se aplica especialmente bem para pratos. Ao programar o chimbau, por exemplo, é importantíssimo o uso de notas fantasmas, mesmo quando o chimbau está aberto.

2. Quantização

Quantização é a edição de uma performance musical para se conformar ao tempo da música. Uma bateria 100% quantizada é uma bateria totalmente coincidente com o grid (divisão rítmica) de determinado andamento (bpm). É importante frisar que mesmo os melhores bateristas do mundo não tocam tudo de maneira totalmente quantizada.

É fácil concluir que uma estratégia para deixar uma bateria programada mais natural é não quantizá-la por inteiro. Vale a pena experimentar quantização entre 60-90% do take. Muitos DAWs apresentam a função “Humanize”, que modifica a performance arrastando as notas MIDI um pouco para a esquerda ou para a direita (muito pouco mesmo, entre 10-20ms), de forma aleatória.

A quantização pode ser inimiga de certos estilos musicais, como o samba. Quando escutamos samba, o que nos faz querer dançar é justamente o fato de que o ritmo não é perfeitamente quantizado. Há um leve deslocamento das notas que é característico ao estilo. No Jazz existe o swing feel, que é o deslocamento das colcheias. No caso de duas colcheias, ao invés de dividirem o pulso exatamente no meio, a segunda colcheia é deslocada para a direita (atrasada). Há infinitas nuances de ritmo de diferentes estilos musicais, e muitas vezes a quantização pode eliminar essas nuances, quando não utilizada com cuidado.

3. Métodos de Programação de Bateria

• Mouse: um bom método para quem não consegue reproduzir os ritmos num teclado MIDI ou numa bateria eletrônica. A vantagem desse método é o controle total do que está sendo programado. Nada vai passar despercebido quando cada nota está sendo escolhida por um clique do mouse. Uma contrapartida é que este método é o mais demorado. Para desenvolver habilidade nesse método, observe bem o grid do seu DAW. Aprenda a visualizar os ritmos e a escrever rapidamente no piano roll.
• Teclado MIDI: um ótimo método para programar bateria, pois permite a captura orgânica de diferenças de velocity e até flutuações rítmicas. Para utilizar desse método você não precisa saber executar todos os ritmos da bateria ou as viradas no teclado. É possível (e até recomendado, para que a bateria seja programada com o máximo de atenção) executar os ritmos de cada parte da bateria por vez. Ou seja, é possível tocar só o chimbau primeiro, depois gravar só o bumbo e a caixa por cima, e progressivamente construir o groove.
• Bateria eletrônica: o método mais óbvio. Para garantir que o som fique convincente depois de gravar MIDI com sua bateria eletrônica, é importante alocar tempo para conferência dos velocities, para quantização e para edição.

4. Algumas sample libraries recomendadas

Outro fator determinante é a sample library, que é o conjunto de sons individuais utilizados na definição da sonoridade do seu kit de bateria. Algumas características comumente procuradas numa boa sample library são: captação sonora de boa qualidade, variedade de peças do kit e dinâmica de timbre (não apenas volume). Uma sample library ruim limita a qualidade sonora da sua linha de bateria. Por isso, além dessas dicas, vamos recomendar também algumas sample libraries para que você alcance um resultado mais que satisfatório.

Observação: os valores mencionados são de acordo com a data deste post.

• Superior Drummer 3
Essa sample library tem mais de 200 GB de samples, com 7 kits de bateria diferentes, 25 caixas e 16 bumbos. É possível escolher os tipos diferentes de baqueta também, e os samples foram gravados para permitirem o uso até em surround, se necessário. A captação dos sons dessa library foi feita por George Massenburg.

Uma sample library super completa e versátil, porém talvez um pouco complexa para programadores iniciantes. Os valores de venda são a partir de 269 euros.

Confira: https://www.toontrack.com/product/superior-drummer-3/

• Getgood Drums
Sample library feita pelo baterista Matt Halpern, da banda de metal Periphery, junto com o engenheiro e produtor Adam “Nolly” Getgood. Como se pode presumir, os timbres são mais agressivos e funcionam muito bem para músicas pesadas. Ainda assim são timbres versáteis e funcionam em vários gêneros musicais, com pratos da Meinl e corpo Pearl de primeira qualidade.

Pelo site é possível comprar 4 kits diferentes, cada um com pelo menos dois bumbos e 4 caixas. O kit mais barato custa 89 dólares.

Confira: https://www.getgooddrums.com/collections/software

• Steven Slate Drums
Talvez o mais versátil no quesito número de peças. 77 caixas, 84 bumbos, 58 toms, 11 hi-hats, 14 crashes, etc. A versatilidade é tanta que é a library que menos possui um “som característico”. Feita com sons de primeiríssima qualidade e o padrão da indústria para triggering, também.

Custa a partir de 149 dólares, mas é possível adquirir uma versão Demo (SSD 5 Free) que não tem tempo de expiração. Vale a pena experimentar!

Confira: https://stevenslatedrums.com/ssd5/

Sobre Alberto Menezes

Alberto Menezes é engenheiro de áudio e músico formado pela Berklee College of Music em Produção Musical e Engenharia de Áudio, com complemento em Acústica e Eletrônica. Morou em Los Angeles por quase 3 anos, trabalhando em estúdios de pós-produção como engenheiro de áudio e escrevendo músicas para filme como freelancer. Em sua carreira, Alberto teve o privilégio de aprender sobre o funcionamento de grandes estúdios de Hollywood lado a lado a engenheiros de áudio nomeados ao Oscar, além de receber premiações independentes aos seus próprios trabalhos. Alguns dos projetos em que Alberto participou como engenheiro de áudio: La Casa de Papel, O Mecanismo, Saint Seiya: Os Cavaleiros do Zodíaco, Evangellion etc.