Destacando-se na engenharia de áudio e produção musical: descobrindo o seu som

Muitas vezes, quanto mais velho o engenheiro de áudio e mais tempo de estrada ele tem, mais credibilidade e respeito ele recebe. E por um bom motivo. Um engenheiro de áudio que trabalha desde os anos 80 vivenciou a fase das máquinas de fita, o surgimento do Napster e das interfaces de áudio de dois canais. Continuar sendo relevante na indústria apesar dessas mudanças tão significativas é uma conquista muito significante. Principalmente porque todos sabemos o quão competitiva é a indústria da música, e que há grande reciclagem de talentos sem remorso.

O artigo [More] Things I wish I learned sooner about audio engineering menciona uma mentalidade da indústria do áudio que existia no passado. Truques secretos realmente eram secretos. Somente aqueles que estivessem bem inclusos no grupo restrito do áudio poderiam aprendê-los. Até que a Internet surgiu, e as pessoas começaram a perceber que compartilhar esses segredos é uma ótima maneira de conseguir dinheiro. Por isso, hoje em dia, áudio já não tem muitos segredos.

Se tem algo que eu aprendi de gerações anteriores de engenheiros de áudio (que é algo que em geral falta nos mais novos) é a ter coragem de sair da zona de conforto para tentar ser único e original. Num mundo onde qualquer pessoa pode ter o mesmo plug-in que você, é a originalidade que vai diferenciar suas produções de todo o gigantesco resto de engenheiros que também juntou dinheiro para comprar plug-ins UAD. Eu não estou falando que precisamos chegar no nível da Sylvia Massy e gravar um som de bumbo utilizando uma mangueira (apesar de que isso é muito legal – quem não conhece a Sylvia Massy, procure o nome dela no Google). Mas é muito possível, por exemplo, experimentar pedais de guitarra como um insert em vocais, ou usar um gravador de cassette para processor o som de sala da sua bateria. Esse tipo de experimento é encorajado para te fazer descobrir sua identidade sonora original e única.

A Era Digital trouxe várias conveniências e, justamente por isso, muitas pessoas novas estão gravando e produzindo música hoje em dia. Computadores reduziram em muito o nível de conhecimento e equipamentos necessários para que músicos consigam se gravar e, com a Internet, o acesso a informação é tão fácil que qualquer pessoa consegue descobrir os truques de gravação utilizados nos estúdios de Nova Iorque ou Los Angeles.

O problema da Era Digital e da abundância de informação é que parece que está tudo conveniente até demais. Quer saber como fulano de tal conseguiu aquele som? Fácil: ele usou a guitarra x e o microfone y na posição z. Só que criatividade prospera na necessidade. Como a criatividade poderia prosperar se ela não é necessária e está tudo tão fácil? Não revolucionaremos as técnicas de áudio se estamos tentando imitar o que todo mundo já faz.

Imagine, por exemplo, os engenheiros de áudio e produtores por trás do álbum Sgt. Peppers, em 1967. Será que o George Martin, o Geoff Emerick e o resto da equipe do Abbey Road só usaram presets de plug-ins, ou será que eles seguiram os ouvidos deles? Efeitos, loops de fita, e todo tipo de processamento foram feitos com cuidado e carinho, utilizando de equipamentos que praticamente só eles tinham. Mas não é preciso ter uma equipe gigantesca, equipamentos incríveis, e engenheiros elétricos à sua disposição para ser criativo. Experimente posições de microfonação inesperadas, use sons de reverb reais do banheiro da casa da sua vó, ou da escada do prédio da sua tia. Pense fora da caixa. Esse é o tipo de pensamento que vai te diferenciar do produtor qualquer da rua de baixo.

Sobre Alberto Menezes

Alberto Menezes é engenheiro de áudio e músico formado pela Berklee College of Music em Produção Musical e Engenharia de Áudio, com complemento em Acústica e Eletrônica. Morou em Los Angeles por quase 3 anos, trabalhando em estúdios de pós-produção como engenheiro de áudio e escrevendo músicas para filme como freelancer. Em sua carreira, Alberto teve o privilégio de aprender sobre o funcionamento de grandes estúdios de Hollywood lado a lado a engenheiros de áudio nomeados ao Oscar, além de receber premiações independentes aos seus próprios trabalhos. Alguns dos projetos em que Alberto participou como engenheiro de áudio: La Casa de Papel, O Mecanismo, Saint Seiya: Os Cavaleiros do Zodíaco, Evangellion etc.