Compressores: definição, tipos e dicas de uso

Compressores consistem em uma categoria de Dinâmicos, isto é, ferramentas utilizadas para manipular a margem dinâmica de um sinal de áudio. No caso em questão, esse recurso possui como principal função e característica a redução da margem dinâmica do sinal, reduzindo seu volume ao detectar um pico, ou seja, comprimindo-o. Assim, a diferença entre o som de maior amplitude e o de menor amplitude é reduzida; por isso dizemos que a margem dinâmica diminui. O uso controlado de compressão traz uma sonoridade polida às tracks ao controlar os níveis máximos e manter um alto nível médio de volume percebido (muitas vezes referido como loudness).

Por que usar compressão?

Compressores permitem suavizar uma track, conferindo a ela uma sonoridade mais natural e inteligível sem adicionar distorção notável – quando não usados em exagero – o que torna a experiência auditiva mais agradável, de uma forma geral. Além disso, muitos compressores – tanto analógicos quando digitais – possuem uma sonoridade muito característica do modelo específico usado, o que ajuda na coloração uma track outrora sem vida. Por outro lado, deve-se atentar também ao seu uso excessivo, já que têm também o potencial de “matar” completamente o conteúdo musical em questão. Por isso, é importante compreender o funcionamento básico de um compressor, para que seja usado a seu favor.

Envelope e seus parâmetros

A curva de compressão é conhecida como Envelope e descreve as mudanças em estágio de ganho de um determinado material musical num certo tempo de atuação. O Envelope de um compressor é normalmente definido por uma série de parâmetros básicos, sendo eles:

    Threshold: é o nível que define a partir de qual volume de entrada o sinal é comprimido. Assim, para um Threshold de -15dB, por exemplo, todo som que atinge -15dB ativa o compressor. Alguns compressores apresentam, ao invés desse parâmetro, o Input Gain (ganho de entrada), o qual permite diminuir ou aumentar a quantidade de sinal que adentra no compressor dado um Threshold fixo, desempenhando, portanto, praticamente a mesma função.
    Attack: é o tempo que o compressor leva para atuar a partir do momento em que o Threshold é ultrapassado pelo sinal – em outras palavras, é o tempo de ataque do compressor. Por exemplo: um Attack de 30ms implica que, 30 milissegundos após o som ultrapassar o Threshold, a compressão é efetivamente iniciada.
    Release: define o tempo que o compressor leva para parar de atuar depois que o sinal volta para baixo da linha do Threshold – ou seja, é o tempo de soltura do compressor. Assim, para um Release de 20ms, o compressor deixa de comprimir o sinal 20 milissegundos após ele sair da região de compressão definida pelo Threshold.


    Representação gráfica dos parâmetros Attack, Release e Threshold (Fonte: Universal Audio)

    Knee: o “joelho” do compressor é o que define o quão abrupta ou suave é a compressão a partir do momento em que o compressor é ativado. Em outras palavras, define a velocidade do compressor para chegar à sua total potência de atuação (após decorrido o intervalo do Attack). Um Soft Knee gera um início de compressão suave, enquanto o Hard Knee, pelo contrário, define uma compressão mais severa.


    Representação gráfica da atuação do Knee (Fonte: Universal Audio)

    Ratio: é a razão da compressão, isto é, a proporção de redução de decibéis acima da linha do Threshold. Com um Ratio de 4:1, por exemplo, para cada som que ultrapassa em 4dB o Threshold, o nível de saída é de apenas 1dB acima, logo 8dB viram 2dB e assim sucessivamente.


    Representação gráfica da atuação do Ratio (Fonte: Universal Audio)

    Output Gain: muitas vezes também chamado de Make-Up Gain – é o volume de ganho de saída, que permite “compensar” a atenuação do compressor. Seu valor pode ser facilmente definido observando-se o medidor de volume que, na maior parte das vezes, permite visualizar tanto a redução de ganho quanto o sinal de entrada e/ou saída. Assim, é possível obter um pico de saída igual ao de entrada. Nesse caso, porém, o som processado percebido é, na verdade, o de um volume maior, pois o volume médio total aumenta, devido à redução da margem dinâmica seguida da compensação do ganho de saída.

Tipos de compressores

Agora que sabemos como manipular compressores, é importante estudarmos os diferentes tipos e a forma como são construídos, de forma a termos mais segurança na hora de escolher qual modelo usar, de acordo com a sonoridade que o contexto musical exige. Afinal, mesmo possuindo parâmetros similares, tipos e modelos distintos de compressores imprimem uma identidade sonora única em seu processamento. Alguns possuem tempos de Attack e Release mais rápidos que os outros. Alguns são mais transparentes que os outros. Outros possuem uma coloração mais vintage. A seguir, vemos como essas características variam em cada tipo:

    1. Variable MU: são compressores valvulados e os pioneiros da compressão. Possuem Ratio fixo, isto é, o usuário não consegue mudá-lo com um parâmetro exclusivo. Porém, o Ratio varia de acordo com a intensidade do sinal comprimido – quanto mais o sinal ultrapassa o Threshold, maior é a razão de compressão, e, à medida que ele volta a se aproximar do Threshold, a razão diminui – o que traz uma sensação bem característica de válvulas. Muitos compressores desse tipo possuem, ao invés de tempos de Attack e Release, um parâmetro chamado Time Constant, que é, basicamente, um intermediário dos dois – geralmente, menores valores de Time Constant implicam em menores tempos de Attack e Release.


    O Fairchild é um dos modelos pioneiros de compressores e um grande exemplo do tipo Variable MU

    2. FET: os compressores de Field Effect Transistor (Transistor de Efeito de Campo) são bem agressivos e adicionam textura ao som ao gerar THD (Total Harmonic Distortion – distorção total de harmônicos). É um compressor muito adequado para o controle de micro dinâmica, isto é, é extremamente eficaz na administração de picos, já que seus valores de Attack e Release costumam ser bem rápidos. Possuem, tipicamente, controles de Attack, Release, Ratio e Input Gain. É interessante notar que muitos não possuem controle de Threshold, sendo este fixo, porém, com o Input Gain (ganho de entrada) é possível determinar, de forma similar, a quantidade de sinal que irá adentrar a zona de compressão.


    O 1176 é um exemplo clássico do tipo FET e possui várias iterações, tendo cada cor uma sonoridade diferente

    3. Opto: os compressores ópticos funcionam com células fotovoltaicas, as quais captam a luz emitida por um LED de acordo com a dinâmica do sinal de entrada e, com isso, ativam a compressão. São compressores de Attack e Release tipicamente lentos e fixos, assim como o Ratio e o Threshold, e extremamente adequados para o controle de macro dinâmica – isto é, controle do volume médio percebido (RMS). Sua sonoridade é bem suave, de forma que a compressão é percebida de forma muito mais branda do que a que está sendo efetivamente aplicada sobre o sinal, portanto são bem musicais. Seus parâmetros ajustáveis são normalmente poucos, sendo eles: Input Gain e Output Gain.



    Os compressores LA2A e LA3A (cima e baixo, respectivamente) são representantes clássicos de compressores óticos

    4. VCA: os compressores do tipo Voltage Controlled Amplifier (Amplificador Controlado por Tensão) são também compostos por transistores, porém, diferentemente dos FET, são extremamente transparentes e não geram distorção de harmônicos. Seus parâmetros tipicamente ajustáveis são o Attack, Release, Ratio, Threshold e Output Gain.


    Os compressores de mesas analógicas SSL são grandes exemplos do tipo VCA

Além desses quatro tipos elementares, existem também compressores híbridos, ou seja, aqueles que combinam mecanismos diferentes de acordo com o estágio de ganho. O compressor Avalon 737, por exemplo, usa válvulas nas seções de entrada e saída de sinal, porém o estágio de compressão em si é similar ao de um compressor óptico.

É válido também ressaltar que, como ocorre com basicamente toda categoria de equipamento analógico, existem plug-ins especializados na emulação de modelos clássicos de compressores de cada um dos tipos descritos.

Dicas de uso de compressão

Compressores podem ser utilizados com uma gama extensa de finalidades, sendo altamente aplicáveis no molde de timbres, geração de efeitos sônicos e também na proteção do sistema de gravação e reprodução. Alguns exemplos de seu uso são:

    – O uso de um Attack Lento e Release rápido para enfatizar os transientes de um sinal. O fenômeno chamado Pumping and Breathing, ou British Compression, consiste nesse uso, porém de forma bem agressiva, geralmente com compressores FET, utilizando-se valores de Ratio extremamente elevados, o que passa uma sensação de compressão severa e com picos exacerbados. Nessa aplicação, os transientes que ativam o compressor passam em maior parte inalterados devido ao Attack lento, porém uma alta taxa de compressão vem logo em seguida e o compressor rapidamente se recupera (devido ao Release rápido) para conseguir atuar já no próximo transiente. É um método eficaz de se ressaltar, por exemplo: a batida de caixas e bumbos de bateria, o ataque dos dedos de um contrabaixo, o ataque das palhetas em uma guitarra, ou qualquer sinal que possua um transiente bem definido de forma geral.

    – Em contrapartida, o uso de um Attack rápido e Release lento é recomendado para atenuar os transientes de um sinal e enfatizar o decaimento daquele som (muitas vezes referido como Sustain). Assim, com essa técnica é possível, por exemplo, conferir maior homogeneidade ao Sustain de uma nota longa de um contrabaixo, ou até mesmo ao decaimento das ressonâncias das peças de um kit de bateria.

    – Muitas vezes, é conveniente o uso da compressão paralela, ou seja, o uso de um compressor (normalmente em configurações mais extremas) em uma cópia do sinal em questão, de forma a gerar uma camada de “corpo” substancial, que pode ser somada ao sinal limpo de forma a preservar a dinâmica da performance original ao mesmo tempo em que se desfruta dos benefícios dos timbres comprimidos.

    – É possível, também, usar a compressão no modo Sidechain, no qual o compressor é acionado não pelo sinal em que ele é aplicado, mas sim por um sinal externo. Assim, por exemplo, é possível comprimir um som de contrabaixo de acordo com as batidas de um bumbo. Esse recurso, aplicado a tais instrumentos em específico, é o que gera a clássica sonoridade de música eletrônica, em que a pulsação é definida pela intercalação de bumbo e baixo. Porém, nada impede sua aplicação em outros contextos musicais e entre instrumentos diferentes – por exemplo, entre uma voz principal e uma cópia desta 100% processada com Delay, o que evita que o efeito de repetição prejudique a inteligibilidade da voz quando o/a vocalista canta.

    – Compressores com Ratios extremamente altos/infinitos são chamados de Limiters, que são, literalmente, limitadores de picos, já que nenhum transiente que passa do Threshold é mantido – assim, todo decibel excedente é anulado, e o valor máximo de pico de sinal de saída passa a ser aquele definido pelo Threshold (desde que o valor do Attack seja rápido o suficiente para conter todo o transiente). Limiters são muito usados para proteger sistemas de gravação e monitoração contra picos de sinal, e também para conferir um nível de volume geral adequado para plataformas de reprodução distintas sem que os picos se saturem. No entanto, devem ser usados com cautela já que os próprios Limiters podem induzir distorção quando usados em configurações de Attack e Release muito rápidas e atenuando elevados valores de pico.

A compressão é um recurso fenomenal e que, quando usada com maestria, pode proporcionar uma sonoridade extremamente profissional e agradável aos ouvidos – tanto em contextos de gravação quanto na mixagem e masterização. Por isso, é importante se familiarizar com o padrão de funcionamento de compressores em geral e com a sonoridade de cada modelo – para, que então, você use a compressão a seu favor e obtenha resultados artísticos incríveis!

Sobre Rafael Freitas

Graduado em Engenharia Mecânica pelo CEFET-MG, atua como revisor de conteúdo e editor de áudio na UA, além de ser baixista profissional e produtor musical. Rafael especializou-se em engenharia de áudio e produção musical através de cursos presenciais e workshops de profissionais reconhecidos do mercado de trabalho nacional como Pedro Peixoto e Beto Neves e mantém um constante aprendizado na produtora Sonastério. Como baixista, seus destaques incluem mais de duzentas faixas gravadas para artistas ao redor do globo, um canal no YouTube com mais de 750 mil visualizações e shows e workshops ao lado de músicos de renome como Aaron Spears (Usher/Ariana Grande) e Doca Rolim (Skank).

1 Comentário

  • Wilmamrodrigues@hotmail.com'
    Wilma

    Muito obrigada produtor e professor Rafael Freitas pela sua didática legível e inteligente.
    Eu que não sei nada, nada ainda, já consegui entender um pouco de tudo o que você ensinou com dedicação.
    Parabéns!
    Parabéns para toda a equipe da Universidade do Áudio.
    Gratidão.

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