Como proteger seu equipamento de estúdio?

A compra de equipamentos de proteção não está dentre os investimentos mais divertidos de se fazer para a grande maioria de nós músicos, engenheiros de áudio e produtores musicais. Mas menos divertido ainda, certamente, é ter seus monitores, racks ou quaisquer componentes eletrônicas do seu estúdio danificados ou simplesmente parando de funcionar de um dia para o outro. Por isso, devemos investir na proteção do nosso equipamento. Gosto de pensar que esses equipamentos de proteção são como seguro de saúde: são um gasto que não nos trazem muito prazer, mas podemos concordar que é importante ser feito, certo?

Muitas vezes, a instalação elétrica do local em que seu estúdio se encontra pode estar longe de ser a ideal, e a solução provavelmente está fora de seu alcance – afinal, o problema pode estar na rede elétrica da construção, da região ou até mesmo da cidade. Assim, nem toda fonte de energia que chega aos seus equipamentos é totalmente adequada para a operação deles. Por isso, para garantir a maior vida útil do seu tão valorizado equipamento de estúdio, pelo qual você tanto lutou para adquirir, e também para evitar inconveniências no dia-a-dia de trabalho, são fundamentais equipamentos que sejam capazes de executar as seguintes funções:

    1. Fornecer energia o suficiente para o desligamento seguro de todos os equipamentos no caso de queda de energia.
    2. Filtrar ruídos oriundos de interferência externa.
    3. Estabilizar os níveis de tensão da rede elétrica.
    4. Proteger contra surtos e picos de energia.

Para isso, existem basicamente dois tipos de equipamento que considero fundamentais:

    Nobreaks: são dispositivos que possuem uma bateria de reserva, a qual fornece minutos extras de energia no caso de falta de energia no estabelecimento. Sua principal finalidade é possibilitar o desligamento seguro e adequado de todos os equipamentos, evitando também que o usuário de um computador do tipo Desktop perca o trabalho desenvolvido ao longo das últimas horas ou até mesmo do dia todo.
    Condicionadores de energia: são dispositivos que filtram e distribuem a energia para diversos equipamentos eletrônicos, como interfaces de áudio, monitores de áudio, mesas analógicas, periféricos etc.

A principal diferença entre esses dois tipos está na presença de uma bateria, a qual se encontra num nobreak, mas não num condicionador de energia. No entanto, é valido frisar que alguns nobreaks podem também desempenhar funções de condicionadores de energia, oferecendo vários níveis de proteção.

A seguir, veremos algumas características de funcionamento destes aparelhos de forma mais aprofundada.

Condicionadores de energia

Você provavelmente já viu um deles: é aquela unidade preta no topo de tudo quanto é rack, seja em um estúdio ou num setup ao vivo. Alguns deles possuem um pequeno LED e uma tomada na parte frontal, que garante fácil acesso para carregamento de dispositivos móveis, por exemplo. Mas, afinal, qual é a utilidade de um condicionador de energia e como ele pode ser útil para seu estúdio? Por que não usar simplesmente uma tomada ou um filtro de linha?

A finalidade de um condicionador de energia é filtrar, limpar e estabilizar a corrente alternada que chega pela sua instalação elétrica, o que, teoricamente, prolonga a vida útil de seus equipamentos e garante uma performance otimizada. Por esses motivos, o seu uso em um estúdio, mesmo que de pequeno porte, é bastante empregado e altamente recomendado. Esses dispositivos também podem proteger seu equipamento contra sub e sobrecargas, desligando-se e cortando o fornecimento de energia no caso de um surto ou pico elétrico – diferentemente de um filtro de linha, o qual se sacrifica numa ocasião como essa ao ter seu fusível estourado, e ainda, possivelmente, permitindo a passagem de corrente além do tolerável antes da sua parada total. Este vídeo da fabricante Furman mostra bem como o uso de um condicionador de energia que protege contra surtos é muito superior ao de um filtro de linha comum.


Exemplo de condicionador de energia da Furman, uma das marcas mais conhecidas do segmento, principalmente tratando-se de estúdios musicais

Nobreaks

Nobreaks são equipamentos essenciais para regiões em que apagões ou semi-apagões ocorrem com uma certa frequência, pois evitam que a queda de energia leve a desgastes desnecessários nos equipamentos e danifique dados de trabalho de formas imprevisíveis. No exterior, são conhecidos como UPS (Uninterrupt Power Supply – Fonte de Alimentação Ininterrupta). Grande parte dos nobreaks, mesmo os mais básicos, contam com um certo nível de proteção, principalmente contra surtos elétricos.

Alguns parâmetros a que devemos nos atentar ao escolher nobreaks são a forma da onda da corrente alternada, bem como o padrão de funcionamento do equipamento.


Exemplar de nobreak da fabricante SMS

A seguir, vemos os principais tipos de cada parâmetro:

Forma de onda
Esse parâmetro diz respeito à representação gráfica da evolução da onda de corrente alternada ao longo do tempo quando fornecida no modo bateria (isto é, quando não há energia sendo fornecida pela rede elétrica).

    Onda quadrada: são ondas que variam de forma não gradual, normalmente presente em nobreaks simples e baratos. Podem fazer com que certos aparelhos, como caixas acústicas, apresentem mau funcionamento, e por isso devem ser evitadas em ambientes de estúdio.

    Onda semi-senoidal ou senoidal-estabilizada: é uma opção intermediária entre a onda quadrada e a senoidal. As variações são menos bruscas do que na onda quadrada pois conta com intervalos maiores. São opções geralmente mais caras que as quadradas e mais baratas que as senoidais.

    Onda senoidal: é a melhor forma de onda possível, pois corresponde àquela entregue pela concessionária elétrica. É a forma mais limpa e ideal para equipamentos mais sensíveis (como os de um estúdio). Os inversores que fornecem essa forma de onda são de fabricação complexa, e por isso seu custo é o mais alto de todos.


    Representação gráfica dos tipos de onda fornecidos por nobreaks. Fonte: BZTech

Padrão de funcionamento

    Offline ou Standby: são, normalmente, os mais baratos. Em condições normais, fornecem a energia de corrente alternada diretamente da rede elétrica, e enquanto isso, a bateria é carregada por um carregador e fica em modo de espera (daí o nome standby). Numa situação de queda de energia, o nobreak alterna o fornecimento de energia para a bateria, o que leva um intervalo de tempo que pode ir de 5 a 100ms. Por esse motivo, esse nobreak não é literalmente ininterrupto. Esse lapso de energia pode ser perigoso para equipamentos mais sensíveis, como motores. Porém, para a maior parte dos computadores desktops, é tolerável. Quando operando no modo bateria, a maioria dos nobreaks desse tipo entregam ondas quadradas ou semi-senoidais.


    Diagrama de funcionamento do nobreak offline. Fonte: BZTech

    Line Interactive ou Linha Interativa: como nos offline, também só usam a bateria quando detectam uma queda no fornecimento de energia, porém a bateria é carregada pelo inversor, e não por um carregador como é no caso dos offline. Um circuito de monitoramento fica responsável pela identificação de eventuais quedas na tensão elétrica. Esses nobreaks são ótimos em lidar com semi-apagões (algo que os offline não são), pois possuem um transformador especial que mantém o valor de tensão de saída em resposta a variações momentâneas de energia. São nobreaks mais caros que os offline e mais baratos que o próximo tipo: os online.


    Diagrama de funcionamento do nobreak line interactive. Fonte: BZTech

    Online ou Dupla Conversão: são os melhores e os mais caros. São os mais utilizados em estabelecimentos comerciais de médio ou grande porte. Seu método de dupla conversão consiste em converter a corrente alternada da instalação elétrica em corrente contínua para carregar a bateria e, em seguida, efetuar a conversão reversa para fornecer energia aos equipamentos. Por isso, possibilitam literalmente nenhuma interrupção de fornecimento de energia, já que a bateria está em constante uso. Nesse tipo, a energia entregue aos equipamentos conectados é de excelente qualidade e geralmente a forma da onda é senoidal. No entanto, possuem como desvantagem elevados preços, além de consumirem mais energia que os standby.


    Diagrama de funcionamento do nobreak online. Fonte: BZTech

Potência do nobreak

Além dos fatores listados anteriormente, é importante se atentar à potência do nobreak, que é medida em Volt-Ampére (VA). Esse valor, basicamente, diz respeito à capacidade de entrega de energia para seu equipamento no caso de uma queda de energia – portanto, quanto maior for o valor de VA’s, por mais tempo o nobreak consegue fornecer energia ao que está conectado a ele. O tempo pode variar bastante de acordo com a potência do equipamento conectado, porém, nobreaks de 200 a 1500VA, num cenário de estúdio de pequeno a médio porte, deve ser suficiente para manter tudo ligado por até 10 minutos de duração (a depender também do estado da bateria). Tal intervalo de tempo pode ser visto como curto, mas é mais do que suficiente para salvar seus trabalhos e sessões e desligar todos os equipamentos de forma segura até que o fornecimento de energia elétrica retorne e se estabilize.

Conclusão

O que eu sugiro, para garantir uma proteção adequada dos equipamentos no fim das contas, é o uso de um nobreak senoidal de tipo linha interativa ou dupla conversão, a fim de garantir um fornecimento realmente ininterrupto de energia elétrica no caso de apagões ou semi-apagões, ligado a um condicionador de energia para filtrar ruidos e proteger o sistema de seu estúdio contra surtos elétricos. Ou então, utilizar um nobreak que possua também a função de condicionador de energia.

Sempre priorizei a prevenção no lugar de remediação em todos os aspectos da vida, e, quando se trata de equipamento de uso profissional, para mim não é diferente. Eu prefiro e recomendo ter um gasto pontual relativamente alto para garantir a proteção e bom funcionamento dos meus equipamentos caros e de difícil obtenção (principalmente considerando nosso cenário brasileiro) do que correr o risco de danificá-los ou até mesmo perdê-los devido a instabilidades na rede elétrica que fogem do meu controle.

Quando se trata de marcas, algumas das que mais confio e vejo em uso são:

Nobreaks: SMS, APC e CyberPower.
Condicionadores de energia: Furman e Upsai.

Com isso, recomendo uma pesquisa sobre quais modelos atendem à sua necessidade conforme as características e níveis de proteção de cada unidade. Assim, você poderá ter a consciência tranquila numa situação de instabilidades na rede elétrica e saber que seu trabalho está seguro e protegido!

Sobre Rafael Freitas

Graduado em Engenharia Mecânica pelo CEFET-MG, atua como revisor de conteúdo e editor de áudio na UA, além de ser baixista profissional e produtor musical. Rafael especializou-se em engenharia de áudio e produção musical através de cursos presenciais e workshops de profissionais reconhecidos do mercado de trabalho nacional como Pedro Peixoto e Beto Neves e mantém um constante aprendizado na produtora Sonastério. Como baixista, seus destaques incluem mais de duzentas faixas gravadas para artistas ao redor do globo, um canal no YouTube com mais de 750 mil visualizações e shows e workshops ao lado de músicos de renome como Aaron Spears (Usher/Ariana Grande) e Doca Rolim (Skank).

Comentários (2)

  • Wilmamrodrigues@hotmail.com'
    Wilma

    Wilma
    Informação valiosíssima.
    Muito obrigada.

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