Como preparar uma produção para a mixagem

Uma ótima mix começa bem antes de o áudio sair pelos falantes. É preciso criar bons hábitos de preparação das tracks, organização de arquivos, estrutura de ganho e templates de plugins para preparar suas produções para uma mix de alta qualidade. Nesse sentido, é preciso garantir a melhor integridade possível do material gravado de forma e evitar a todo custo deixar que erros de gravação, edição e/ou produção em geral sejam “consertados na mix”.

Para isso, separei algumas dicas de hábitos para garantir que a transição para a mixagem ocorra de forma suave, permitindo que o mixer foque na criatividade – seja ele o próprio produtor ou outro profissional.

1. Produza com o resultado final em mente

Como um produtor ou engenheiro, é importante manter em mente a visão da música finalizada quando criando ou editando sons. Algumas pessoas se referem a essa mentalidade e workflow como “mixing as you go”, isto é, “mixar ao longo do caminho”, o que é um bom lembrete para termos confidência para nos comprometermos com os sons que servem à música. Trabalhar dessa forma é benéfica para todos os envolvidos já que a música flui com mais facilidade, inspira o artista e dá ao engenheiro de mix um sólido ponto de começo, além de uma boa referência quando trabalhando na mix final. Se você está mixando sua própria produção, você fará sua vida muito mais eficiente se comprometer-se com os sons à medida que os cria.

Tomadas as decisões ao longo do caminho da produção, talvez você se pergunte qual é a melhor forma de entregar sua sessão para um engenheiro de mix, assumindo que você quer que ele trabalhe a partir do ponto em que você parou.

– A primeira opção é fazer um bounce de todas as suas tracks consolidadas (isto é, todas com a mesma duração total) para o engenheiro de mix. Procure por qualquer plugin desnecessário ou tracks que sobraram do processo de produção ou gravação que não são cruciais para a mix. Talvez você tenha duplicado o lead vocal enquanto gravava ou experimentou um reverb que no fim das contas não era o certo para aquele contexto. Deletar todas essas tracks antes de mandá-las para a mixagem vai salvar muita confusão por parte do seu engenheiro e ajudar a manter tudo organizado.

Depois de verificado que tudo na sua sessão é o que realmente deveria estar na sua música, faça um commit de todo o processamento como ele está, gerando, para cada track, um novo arquivo de áudio com todos os efeitos e plugins já embutidos. Muitas DAW’s permitem que você faça isso com facilidade e velocidade – basta verificar como se chama esse recurso na sua DAW favorita. No Pro Tools, por exemplo, o recurso se chama “Commit”, e no Logic Pro X, “Bounce In Place”. Adicionalmente, você pode também imprimir seus auxiliares de efeitos, como reverbs e delays, em novas tracks de áudio. Fazer isso permite que o mixer coloque todas as tracks em uma nova sessão e comece a trabalhar de imediato com todos os sons que você criou.

– A segunda opção é trabalhar com um engenheiro de mix que usa a mesma DAW e plugins que você, o que te permite simplesmente enviar sua sessão para ele e ele irá assumir o trabalho exatamente de onde você parou. Trabalhar dessa forma tem a grande vantagem de permitir ao mixer alterar seus plugins de acordo com o gosto dele, ao invés de adicionar o próprio processamento para corrigir algo que ele sentiu que não estava no ponto certo.

Nenhum método é melhor ou pior – é simplesmente uma questão de o que funciona melhor para o seu time.

2. Comunique-se com o Engenheiro de Mix

Todo engenheiro de mix experiente sabe que a parte mais importante da preparação de uma mix é a comunicação. Comunicar ao engenheiro o que ele precisa para dar ao artista a melhor mix possível é crucial e reduz a possibilidade de atrito entre as partes envolvidas. Se você é o produtor, simplesmente perguntar ao engenheiro de mix sobre quanto tempo irá levar para que a mix seja feita, quando é esperado que se tenha novidade para escutar e como funciona seu processo de recall é essencial para garantir que todo mundo esteja na mesma página.

Também é importante discutir abertamente com o mixer como ele prefere que as tracks sejam nomeadas, organizadas e consolidadas. O workflow e preferência de cada um é diferente. Ao comunicar o que é necessário logo no começo irá poupar ambas as partes de frustração e tempo desperdiçado navegando por pastas ou renomeando e convertendo arquivos. É sempre melhor estar superpreparado e comunicar desde o começo do que esperar problemas surgirem ao longo do processo.

3. Organize suas sessões

Esse passo pode ser bem simples e direto para algumas pessoas, mas baixar, nomear e colorir é muito mais importante do que a maior parte das pessoas pensa. O primeiro motivo é velocidade. Quando sua sessão é organizada em cores e nomeadas de um jeito que é confortável, navegar por sessões grandes e encontrar o exato canal que você precisa manipular se torna fácil e rápido. Encontre um padrão de cores que funciona para você em sua DAW e mantenha-o.

O segundo motivo para uma boa organização é confiabilidade. Se cada sessão estiver nomeada impropriamente e seus arquivos estiverem espalhados por todo seu HD, fazer recalls será um pesadelo. Não há nada pior do que abrir uma sessão alguns dias depois e perceber que arquivos de áudio estão faltando e você não faz a menor ideia de onde eles estão. Mais uma vez, encontre um sistema que funciona para seu fluxo de trabalho, e mantenha tudo nomeado, seguro e com um back-up.

4. Recomece sua estrutura de ganho

Um equívoco comum que se tem ao trabalhar no mundo digital é que, diferentemente do mundo analógico, níveis de sinal e estrutura de ganho não são importantes. Porém, níveis de ganho são muito importantes ao se processar áudio na sua DAW, especialmente quando usando plugins de emulação analógica. Portanto, assim como um engenheiro “zera” a mesa e calibra a máquina de fita antes de começar uma nova mix, designar os níveis na sua DAW é também um hábito necessário para se preparar para começar uma mix.

Como fazer uma estrutura de ganho adequada requer uma aula aprofundada em outro momento, mas, de forma resumida, pode ser feita da seguitne forma:

– Usando um plugin de ganho (muitas vezes chamado de Trim ou então o próprio clip gain, certifique-se de cada arquivo de áudio, antes de passar por qualquer plugin, esteja atingindo por volta de -10dbFS. Isso deverá te dar bastante headroom para processar o áudio futuramente sem que ocorra clipping não-intencional. Com cada canal individual no nível adequado, agrupe todos seus faders e desça-os alguns poucos dB’s para garantir que seu master fader não clipe e tenha bastante headroom para processamento.

5. Configure um template de plugins

Configurar um template básico de plugins no estágio preparatório fará com que você comece sua mix com uma fundação sólida e te agilizará muito a conclusão da mix. Muitas pessoas gostam de usar em grupos ou canais individuais algum tipo de simulação analógica, como de máquinas de fita ou válvulas – isso é uma forma bem direta de já encaminhar sua mix para uma sonoridade mais analógica e rapidamente dar mais vida e profundidade. A exemplo disso, temos os plugins Studer A800 (Universal Audio) e Virtual Tape Machine (Slate Digital), que simulam a sonoridade de máquinas de fita clássicas.

Studer A800, da Universal Audio
Virtual Tape Machine, da Slate Digital

Partir já com esse tipo de processamento em uso ajusta a fundação para sua mix antes que você sequer aperte play. Definir sua paleta de timbres tanto quanto possível garante que o fluxo seja suave quando você começar a mixar.

Você também pode preparar sua sessão com mandadas para auxiliares de efeitos. É muito provável, ou praticamente certo, que na sua mix serão usados reverbs, delays e outros efeitos de tempo, portanto configurá-los de antemão em um canal auxiliar ou abrir um preset salvará tempo no futuro.

6. Entenda que o chato é necessário

Muitos desses passos talvez não sejam considerados como a parte “divertida” de produzir e mixar, mas todos são importantes. Ao dedicar o tempo necessário para preparar a sessão para você mesmo ou outro profissional mixar, você está preparando sua música para o sucesso. Encontre um método e workflow que funciona para você e o adote para sua carreira.

Com esse tipo de metodologia, você verá que o processo inteiro é agilizado e a qualidade dos seu resultados sobe consideravelmente.

Sobre Rafael Freitas

Graduado em Engenharia Mecânica pelo CEFET-MG, atua como revisor de conteúdo e editor de áudio na UA, além de ser baixista profissional e produtor musical. Rafael especializou-se em engenharia de áudio e produção musical através de cursos presenciais e workshops de profissionais reconhecidos do mercado de trabalho nacional como Pedro Peixoto e Beto Neves e mantém um constante aprendizado na produtora Sonastério. Como baixista, seus destaques incluem mais de duzentas faixas gravadas para artistas ao redor do globo, um canal no YouTube com mais de 750 mil visualizações e shows e workshops ao lado de músicos de renome como Aaron Spears (Usher/Ariana Grande) e Doca Rolim (Skank).

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