3 Fundamentos de Edição e Mixagem de voz

A maior parte dos ouvintes repara primeiro nos vocais de uma música antes de qualquer outro elemento. O vocal geralmente – especialmente na música popular – é o centro emocional de uma música. Um músico tende a ter um ouvido mais aguçado para as nuances dos instrumentos e, com isso, reage emocionalmente a conteúdos instrumentais, por exemplo. Mas para um leigo, a comunicação verbal é o jeito mais fácil de entender o sentido da música e qual emoção está sendo transmitida. Por esses e outros detalhes os vocais devem ser objeto de muitíssima atenção na edição e na mixagem.

Vamos tratar de três fundamentos de edição e mixagem de voz que têm o potencial de alterar a maneira com que você encara os vocais das suas produções. Aperta o cinto e bora!

1- Quantização (edição de tempo)

É muito mais fácil quantizar uma bateria do que quantizar um vocal. Isso porque a bateria é um conteúdo sonoro com um envelope muito mais curto: ataque rápido e claro, pouco sustain e decay rápido (com exceção dos pratos, que são justamente o aspecto complicado da edição de bateria). Um vocal nem sempre tem ataques rápidos e geralmente sustain e decay são longos (não é regra!). Isso significa que certos cuidados devem ser tomados para editar um vocal e deixá-lo adequado à produção musical em questão, seja isso no grid ou fora dele.

Antes de começarmos é importante esclarecer dois conceitos: o que é ruído e o que é som harmônico. Para alguns isso é claro, mas quando se vai a fundo os conceitos podem parecer bem complicados.

Um ruído é um som que não tem um harmônico fundamental nítido, ou seja, um som que não tem uma “nota”. É o “Shhhh!” que fazemos para aquele colega que atrapalha a sala de aula, por exemplo. Quando se grava um chiado semelhante ao citado, a onda registrada é densa e confusa. Isso se dá porque as frequências de ruídos não têm proporção harmônica.

Com essa definição fica fácil entender a próxima: o som harmônico é o som que possui frequências em proporção harmônica, ou seja, um som cuja nota fundamental é claramente discernível. São esses sons que definem as notas musicais e, consequentemente, do canto. A nota fundamental de um som harmônico é complementada por várias outras frequências mais agudas, que são especialmente definidas nos múltiplos inteiros dessa nota.

Por exemplo, quando alguém canta um Lá 440Hz: a frequência da nota fundamental é 440Hz, mas também temos nesse som as frequências 880Hz, 1320Hz, 1760Hz, e assim por diante: frequências proporcionais. Para quem não pegou o pulo do gato, os harmônicos são múltiplos inteiros da frequência fundamental, ou seja: 880 é 440×2, 1320 é 440×3, 1760 é 440×4 e por aí vai.

Na parte prática, ao editar um vocal é preciso se atentar ao tipo de som que está sendo trabalhado. Quando o corte é feito em cima ou perto dos ruídos, é mais provável que ele seja imperceptível: fazer cortes na letra “S”, por exemplo, é muito eficaz. Por outro lado, quando o corte é feito no meio de uma vogal, a chance de dar problema é muito grande. Nesses casos qualquer variação de nota ou volume fica muito aparente.

Apesar de tantos detalhes, cortar em sons harmônicos não é impossível. Se for necessário, basta ter a atenção de fazer cortes na zero-wave-crossing, ou o “ponto zero” da onda. O ponto zero é o momento que a onda está exatamente em amplitude zero, ou quando a onda passa pela linha de centro horizontal na tela de sua DAW. Esse truque alinhado a bons crossfades, faz com que quase qualquer coisa seja possível na edição.

2- Afinação (edição de altura)

Não é nenhum mistério que a maior parte – e no caso da música pop, praticamente todos – dos artistas e cantores utilizam de afinação digital em suas vozes. Isso porque nossos ouvidos se acostumaram a escutar essa “perfeição” vocal que não era possível no passado. De tanto ouvir, a “afinação perfeita” se tornou necessária para nós. E não há problema algum em usar o Melodyne, Autotune ou qualquer outro software de afinação. Isso não significa que não existem bons cantores e cantoras, só significa que o ouvido do ouvinte se adaptou a uma nova realidade quase impossível de se extrair de artistas sem melhoria digital. É importante frisar que essas são características fortes na música pop e música comercial, mas não são regra de produção musical. O produtor deve saber qual abordagem ele terá com cada trabalho que passar por suas mãos de acordo com suas características.

Uma dica simples para fazer uma afinação limpa: preste atenção na transição entre as notas. O principal fator que define uma voz de Autotune caricatural (exemplo: T-Pain) não é o fato de as notas estarem afinadas e sim o fato de que a transição é abrupta de uma nota para outra. Portanto, para se afastar da voz de Autotune caricatural basta garantir que as transições não sejam abruptas. No Melodyne isso pode significar cortes antes de se mexer na ferramenta de modulation ou até mesmo antes de qualquer afinação. No Autotune e outros programas automáticos tente um aumento sutil do tempo de ataque da afinação.

Outra dica muito importante é prestar atenção nos ruídos. Como ruído não tem nota fundamental, a afinação não tem o que corrigir e quando ele é distorcido gera-se uma sensação audível muito estranha. Quando se afina tudo sem conferir as letra “S”, por exemplo, também sofrem processamento e isso culmina em resultados esquisitos. Respirações e outras consoantes ruidosas também são bruscamente afetadas e merecem atenção. No Melodyne isso significa cortar os sons ruidosos e evitar qualquer alteração de altura neles. No Autotune isso tende a ser endereçado automaticamente, mas pode acabar significando edição para substituição de tais ruídos (utilizar os ruídos do arquivo de áudio do vocal não processado).

3- Volume

O fator mais importante na mixagem de vocais (na verdade de qualquer elemento) é também o mais simples: volume. É o que garante que a mensagem da música seja passada (se todas as sílabas são compreendidas) e que as pessoas se emocionem ao ouvir (se o arco emocional for complementado pelo arco de volumes e automações).

Não tenha medo de mergulhar no processo de automação de volumes em uma track de voz. Um vocal muito alto pode soar descolado do resto da mix enquanto um vocal muito baixo pode impedir a compreensão do conteúdo lírico. Um “S” muito alto pode doer os ouvidos (e muitas vezes, a alteração manual do volume é mais eficaz do que De-esser) e um “S” muito baixo pode comprometer o sentido da letra ou da dicção do(a) artista.

Quase tudo é volume. Com boas automações é possível substituir compressores, de-essers, expanders, gates e, dependendo, até equalizadores! É claro que não recomendamos abrir mão de todas as ferramentas, mas é muito importante saber que controle de volume feito por automações é uma técnica espetacular que traz resultados realmente diferenciados.

Na hora de mixar escute referências e estude a relação do vocal com os outros elementos da mix. Entenda a relação entre os arcos emocionais com os arcos de volume que você deve buscar. Perceba o equilíbrio das frequências. Com uma boa percepção de como as gravações mais bonitas funcionam, tudo fica mais fácil.

Sobre Alberto Menezes

Alberto Menezes é engenheiro de áudio e músico formado pela Berklee College of Music em Produção Musical e Engenharia de Áudio, com complemento em Acústica e Eletrônica. Morou em Los Angeles por quase 3 anos, trabalhando em estúdios de pós-produção como engenheiro de áudio e escrevendo músicas para filme como freelancer. Em sua carreira, Alberto teve o privilégio de aprender sobre o funcionamento de grandes estúdios de Hollywood lado a lado a engenheiros de áudio nomeados ao Oscar, além de receber premiações independentes aos seus próprios trabalhos. Alguns dos projetos em que Alberto participou como engenheiro de áudio: La Casa de Papel, O Mecanismo, Saint Seiya: Os Cavaleiros do Zodíaco, Evangellion etc.

Comentários (4)

  • rogerbavi@gmail.com'
    Rogério Baviera

    Muito obrigado pelo conteúdo altamente técnico .. estou começando nessa ramo como amador , tenho formação em Engenharia e EAD de produção musical na Universidade de Rochester . Abracos

  • Wilmamrodrigues@hotmail.com'
    Wilma

    Wilma Rodrigues
    Excelente matéria.
    Estou começando aprender agora.
    Linguagem bem legível.
    Gratidã.

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